Um avanço cirúrgico que mudou a história da atresia de esôfago: o legado de Dr. Lúcio T. Marchese

Um avanço cirúrgico que mudou a história da atresia de esôfago: o legado de  Dr. Lúcio T. Marchese

Em 1985, um estudo liderado pelo cirurgião pediátrico Dr. Lúcio T. Marchese, associado da Associação Médica de Londrina (AML), ajudou a redefinir o tratamento cirúrgico da atresia de esôfago em recém-nascidos. Publicado a partir da análise criteriosa de 50 casos, o trabalho propôs e validou a toracotomia posterior sem secção muscular como uma via de acesso mais simples, direta e menos traumática para a correção dessa malformação congênita rara e de alto risco.

À época, o acesso cirúrgico ao esôfago neonatal era considerado um dos maiores desafios da cirurgia pediátrica. Localizado profundamente no tórax, no mediastino posterior, muito próximo à coluna vertebral e a estruturas vitais como traqueia, coração, grandes vasos, nervo vago e nervo frênico, o esôfago impunha limitações técnicas importantes. Essas dificuldades atrasaram por décadas a evolução do tratamento cirúrgico da atresia esofágica.

A proposta de Marchese mostrou que era possível alcançar melhores resultados com menor agressão. A toracotomia posterior oferecia melhor visualização do campo operatório, menor manipulação de estruturas críticas, anastomose sob menor tensão, favorecida pelo alinhamento mais adequado dos cotos esofágicos e uma redução significativa das complicações. O estudo também inovou ao classificar complicações de forma sistematizada e ao contribuir para a padronização de protocolos pós-operatórios mais eficazes.

LEIA MAIS

Quatro Décadas de um Marco na Cirurgia Pediátrica: Uma Homenagem ao Professor Doutor Lúcio T. Marchese

A busca por um caminho menos traumático

O interesse do Dr. Lúcio T. Marchese pela cirurgia esofágica surgiu quando essa área ainda começava a se desenvolver. Já radicado em Londrina e dedicado exclusivamente à cirurgia pediátrica, ele passou a se debruçar sobre um grupo de pacientes particularmente vulnerável: os recém-nascidos com atresia de esôfago.

Até então, a evolução da cirurgia dessa malformação havia passado por diferentes fases, refletindo tendências técnicas predominantes em diferentes períodos históricos. Na primeira, predominavam grandes incisões dorsais, com ressecção de até quatro arcos costais e acesso extrapleural. Embora os resultados imediatos fossem satisfatórios, as consequências tardias eram severas, com deformidades importantes da caixa torácica.

A segunda fase, especialmente a partir da década de 1950, introduziu incisões transversais amplas no tórax, com secção de vários músculos e, em alguns casos, retirada de costelas. Novamente, o sucesso cirúrgico vinha acompanhado de sequelas estéticas e funcionais relevantes.

 

Foi diante desse cenário que Marchese passou a buscar uma alternativa. Estudando minuciosamente a anatomia do recém-nascido, identificou a possibilidade de um acesso posterior ao tórax sem secção muscular, por meio do chamado triângulo auscultatório, preservando músculos como o latíssimo do dorso e o trapézio, uma região tradicionalmente utilizada apenas para a ausculta pulmonar.

Após anos de estudo, o primeiro procedimento da série utilizando essa via foi realizado em 1974, no antigo Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, conhecido como “HUzinho”. Ali, segundo o próprio cirurgião, conviveram "alguns milagres e muitas inovações técnicas".

A partir da confirmação da viabilidade do método, a técnica passou a ser adotada de forma rotineira. A construção de uma casuística robusta, no entanto, exigiu tempo. A atresia de esôfago é uma condição rara, com incidência estimada entre um caso a cada 3,5 mil nascimentos. Somente em 1985, diante de resultados consistentes, o estudo foi finalmente publicado em uma revista científica especializada.

 (Toracotomia posterior no acesso cirúrgico ao esôfago atrésico: uma via simplificada/ Posterior thoracotomy in the surgical approach for esophageal atresia: a simplified way. Marchese, Lúcio Tedesco; Costa, Fernando;  Villari Filho, Sylvio ;  Komatsu, Eurico S ;  Pietrobon; Luiza Helena. Rev. Col. Bras. Cir ; 12(4): 105-10, jul.-ago. 1985. ilus, tab).

Difusão do conhecimento e reconhecimento internacional

Com a publicação do trabalho, a técnica da toracotomia posterior começou a se difundir no Brasil e, posteriormente, em outros países da América do Sul. Marchese compartilhou a experiência por meio de sociedades científicas, congressos e publicações, contribuindo diretamente para a atualização da prática cirúrgica em diversos centros.

Sua contribuição também foi incorporada a obras de referência, como livros de cirurgia pediátrica organizados por nomes centrais da área, entre eles os professores José Pinus — um dos pioneiros da cirurgia pediátrica no Brasil — e João Gilberto Maksoud, autor de tratados fundamentais da especialidade

O reconhecimento, no entanto, nunca foi tratado como um fim em si mesmo. Para Marchese, a maior satisfação sempre esteve no impacto direto sobre os pacientes. A nova abordagem permitia incisões de cerca de cinco centímetros, melhor aspecto pós-operatório, preservação da posição da mama, simetria torácica e recuperação mais rápida, com muito menos trauma físico.

Hoje, a técnica segue evoluindo. A toracotomia posterior abriu caminho para abordagens ainda menos invasivas, como a videotoracoscopia, hoje preferencial em centros com experiência, e aponta para uma próxima etapa: a cirurgia robótica, capaz de oferecer maior precisão de movimentos e reduzir ainda mais as limitações biomecânicas do cirurgião, ainda restrita a poucos centros e em caráter experimental nesse contexto.

"Na ciência e na medicina, o mais longo caminho do mundo é o da simplicidade. Começa complicado e depois vai se simplificando", resume.

Formação e legado

Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o Dr. Lúcio T. Marchese realizou residência em cirurgia geral no Hospital das Clínicas da USP e especialização em cirurgia pediátrica na mesma instituição. Veio para Londrina em 1970 a convite dos professores Humberto de Moraes Novaes e Ascencio Garcia Lopes, integrando um grupo de cinco jovens médicos vindos de São Paulo para prestar concurso e estruturar os serviços locais.

Iniciou suas atividades na Santa Casa de Londrina, onde a antiga faculdade de medicina funcionava. Em 1971, passou a atuar no antigo Hospital Evangélico da Rua Pernambuco, que havia sido cedido à Faculdade de Medicina para funcionamento do hospital universitário, onde atuou como diretor do Pronto Socorro. Em 1972, tornou-se diretor do HU, que ainda era um pequeno hospital. Sob sua gestão, o hospital saiu de 29 leitos para mais de 100, em resposta, entre outros fatores, à epidemia de meningite que atingiu a região.

Ao longo da carreira, Marchese também ocupou posições de liderança institucional. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica, integrou a Federação das Associações de Cirurgia Pediátrica do Cone Sul — com papel relevante na integração científica entre países da América do Sul — e participou do conselho deliberativo da World Federation of Pediatric Surgeons.

Ao olhar para trás, ele valoriza menos os cargos e mais as pessoas. "Já são 40 anos de publicações da cirurgia e 50 anos dos procedimentos. A recordação dos ex-alunos é a melhor parte", afirma. 

Entre as inúmeras histórias de reconhecimento, ele cita o Dr. Arnildo Linck Júnior que,  motivado pelo exemplo de Marchese, desenvolveu um  protocolo de atendimento a recém- nascido com atresia de esôfago, a Assistência multiprofissional nos cuidados pré e pós-operatório de correção de atresia de esôfago.

A equipe conta também com Dr. Ricardo Parreira ,Enfa. Dra. Flávia Lopes Gabani, Enfa. Thaminie Noveli Alves, Fisoterapeuta Francelaine Bruna Campana de Souza Siteiro, Fisioterapeuta Edinara Giacomelli, Enfa Lilian Carla Kawano e Enfa. Ma. Sheila Esteves Farias.

Linck é chefe da UTI Pediátrica do HU da UEL e, na instituição, criou o primeiro ambulatório do Brasil de acompanhamento pós-operatório de pacientes com atresia de esôfago. Hoje, o país tem dois ambulatórios, o segundo no hospital Sabará em São Paulo, 

Para Marchese, a maior riqueza permanece sendo o conhecimento. "Quanto mais se gasta, mais se tem", resume com a simplicidade de quem ajudou a transformar a medicina. 

Por Comunicação AML - Infinita Escrita\Carolina Avansini

Compartilhe: