Quatro Décadas de um Marco na Cirurgia Pediátrica: Uma Homenagem ao Professor Doutor Lúcio T. Marchese
A celebração dos 40 anos da publicação do artigo "Toracotomia Posterior no Acesso Cirúrgico ao Esôfago Atrésico — Uma Via Simplificada" na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões em 1985, é um marco inestimável na história da cirurgia pediátrica. Este trabalho seminal, liderado pelo Professor Doutor Lúcio T. Marchese, representou um avanço significativo na abordagem cirúrgica da atresia de esôfago (AE), uma condição complexa e de alta morbidade. O estudo demonstrou vanguarda e inovação, impactando profundamente a prática clínica ao propor uma técnica que simplificou o acesso cirúrgico e otimizou os resultados no tratamento de crianças com essa anomalia congênita. Quatro décadas após sua divulgação, o artigo permanece um testemunho vibrante da pesquisa brasileira de alta qualidade, que transcendeu fronteiras e modificou permanentemente a abordagem global da doença.
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Conheça o legado de Dr. Lúcio T. Marchesi
A atresia de esôfago (AE) é uma malformação congênita rara, caracterizada pela interrupção da continuidade esofágica, frequentemente associada à fístula traqueoesofágica (FTE) – sendo o tipo C de Gross o mais prevalente. O quadro clínico neonatal exige diagnóstico e intervenção cirúrgica emergenciais. O manejo da AE é historicamente desafiador devido à complexidade da malformação e às particularidades anatômicas dos pacientes pediátricos. Em um contexto de busca por abordagens cirúrgicas mais seguras e menos invasivas, a atuação do Dr. Marchese e sua equipe representou um marco. A toracotomia posterior, proposta e validada, destacou-se por sua engenhosidade. O objetivo era simplificar o acesso cirúrgico às estruturas intratorácicas, tornando o procedimento mais direto e menos traumático do que as técnicas convencionais. Essa otimização do campo operatório visava a mitigação de complicações intrínsecas às abordagens torácicas pediátricas mais extensas, prometendo um impacto positivo no pós-operatório, com redução do tempo de internação e aceleração da recuperação.
O artigo introduziu e validou a toracotomia posterior como alternativa superior à abordagem póstero-lateral convencional para a correção primária da AE. A principal vantagem reside na via cirúrgica mais direta, que otimiza o acesso à região torácica posterior — local ideal para a anastomose esofágica. A abordagem direta minimiza a manipulação de estruturas vitais, como o pulmão e o mediastino, reduzindo o risco de lesões e complicações respiratórias pós-operatórias. O cirurgião obtém uma visão superior e um ângulo de trabalho mais ergonômico para realizar a delicada anastomose. Por fim, a abordagem posterior permite uma melhor mobilização dos segmentos esofágicos, facilitando a anastomose sob menor tensão, um fator crítico para o sucesso da cicatrização e redução da incidência de estenoses e fístulas. A técnica demonstrou resultados clínicos convincentes, superando os da abordagem tradicional em termos de tempo operatório e taxas de complicação. Em reconhecimento à sua eficácia, a toracotomia posterior para correção primária da AE alcançou o status de padrão-ouro (gold standard) em muitos centros de referência internacionais, marcando uma evolução significativa na abordagem técnica e tática do tratamento.
O estudo transcendeu a descrição técnica, apresentando uma análise retrospectiva e detalhada de 50 casos clínicos, conferindo robustez científica. A metodologia destacou-se pelo detalhamento das complicações pós-operatórias, categorizadas sistematicamente em naturezas cirúrgica (diretamente relacionadas ao procedimento) e clínica (intercorrências sistêmicas). Esta categorização refinada permitiu uma análise precisa dos fatores de risco e auxiliou na implementação de protocolos de cuidado pós-operatório mais eficazes, elevando o artigo ao status de exemplo paradigmático de pesquisa translacional. A introdução da toracotomia posterior simplificada resultou em uma contribuição mensurável para a melhoria dos cuidados pós-operatórios. A técnica revelou-se essencial para a atenuação da morbidade associada à intervenção cirúrgica tradicional. A simplificação do acesso posterior resultou em menor trauma tecidual e muscular, levando à redução da dor pós-operatória e à otimização dos desfechos, especialmente em uma coorte de pacientes vulneráveis. A menor taxa de complicações pulmonares e a aceleração da recuperação e reabilitação permitiram uma alta hospitalar mais precoce. A longevidade e a pertinência ininterrupta do artigo atestam o rigor científico e a visão prospectiva do Professor Marchese. O legado deste trabalho estabelece-se como uma diretriz que baliza a prática do cirurgião pediátrico contemporâneo. O Professor Doutor Lúcio T. Marchese dedicou sua trajetória ao aprimoramento de técnicas, à formação de novas gerações de profissionais e, sobretudo, à incorporação da humanidade no tratamento das crianças.
A comunidade científica global, com especial destaque para a cirurgia pediátrica, ostenta uma dívida de gratidão incomensurável para com o Professor Doutor Lúcio T. Marchese. Ao longo de quatro décadas, ele não apenas acompanhou, mas ativamente moldou a evolução da especialidade com sua visão e inovação. Seu trabalho, notabilizado por uma incansável busca pela excelência e pela implementação de técnicas cirúrgicas pioneiras, transcende o valor meramente inestimável. O Professor Marchese dedicou-se a reduzir a morbidade e mortalidade, priorizando os melhores desfechos clínicos e a qualidade de vida a longo prazo para seus pequenos pacientes. Ele não foi apenas um cirurgião de rara habilidade técnica; foi um educador nato e um pesquisador perspicaz. Seu legado reside no alicerce ético e científico sobre o qual novas gerações continuam a edificar suas carreiras. O Professor Doutor Lúcio T. Marchese é uma figura monumental. Sua trajetória é um farol que inspira e orienta, garantindo que o espírito de inovação e a dedicação ao paciente permaneçam no cerne da cirurgia pediátrica.
Parabéns ao Professor Doutor Lúcio T. Marchese e a todos os colaboradores por este marco.
Por Dr. Arnildo Linck Júnior - chefe da UTI Pediátrica do HU da UEL e, na instituição, criou o primeiro ambulatório do Brasil de acompanhamento pós-operatório de pacientes com atresia de esôfago